segunda-feira, 11 de maio de 2015

Ás seis da tarde

Seis da tarde, cinco crianças, uma mãe e um dia inteiro para deitar cá para fora!

Sentada no chão com o Zé a trepar por mim acima, tento consolar a Julieta que está um bocado aborrecida porque o Zé não sabe brincar com ela a nada do que ela quer, e se é assim então "já não gosto dele".

Mas o Zé continua a querer o meu colo, e a Julieta não lhe apetece dividir colo nesta altura, sentado no chão também, está o João, papel e caneta na mão e quer que lhe soletre palavras para ele escrever.
"montanha" e agora "tronco" e "flor" e mais " ..." e mais sei lá quantas palavras.

O Zé aninha-se ao colo, mas quer atenção, a Julieta fecha os olhos mas continua aborrecida, quer o colo só para ela, o João não sabe bem qual é a letra f e agora a Teresa quer ler, para todos, um texto que saiu num teste que fez.

O Zé escorrega-me do colo e gatinha até ao papel do João, quer roubar-lhe a folha de papel, o João fica chateado porque ele vai estragar e antes que isso aconteça, amachuca-a ele e fica triste, a Julieta finalmente conseguiu o colo só para ela, a Teresa agora está a declamar um poema que já decorou e sentado ao computador o Tiago pede-me que vá ver um vídeo sobre biodiversidade que ele viu na aula de ciências.

Eu tenho duas mãos, dois olhos, dois ouvidos, dois braços, duas pernas ... um colo e um só coração, que nestas alturas cresce ainda mais e fica do tamanho da sala, que dá ouvidos e olhos a todos ao mesmo tempo, mas é nestas alturas também que tenho medo de não ser suficiente para todos eles.
Tento acenar a um, embalar outro, responder a outro, dizer espera a mais um, soletrar letras ... e pensar no jantar que tenho que ir fazer, mas e se tudo isto for loucura a mais e eu estiver a fazer tudo errado?

A imagem que me vem à cabeça é de um malabarista com 5 bolas, todas à vez no ar e à vez a serem apanhadas e a destreza com que ele faz isto com uma única preocupação, não deixar nenhuma cair.

Ser mãe é ser malabarista, é ter medo e mostrar coragem, ser insegura mas passar certezas, saber que quase nada sabemos e ainda assim saber de tudo e sobre tudo, ser mãe é sentar-me no chão e pensar "porra que isto não é nada fácil!"

E ainda assim, mesmo que me tivessem avisado, eu tenho a certeza que estaria na mesma às seis da tarde de uma qualquer segunda feira sentada no chão no meio desta loucura.